O Diagnóstico do meu Filho
- Sofia Caessa
- 20 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Pouco mais de um ano do meu diagnóstico, o meu filho foi diagnosticado com Leucemia.

O G foi internado no dia de Natal de 2019 com uma anemia grave e com uma gripe que avançou para pneumonia. Fez uma biópsia à medula, que deu um resultado negativo. Após uma semana, teve alta e a possibilidade de ele ter uma doença maligna tinha sido completamente excluída. Ficou em casa uma semana para ganhar forças antes de regressar à escola. Três semanas após a alta voltamos ao hospital para fazermos um novo hemograma e vermos os valores. Na consulta certificaram-me que a biópsia feita durante o internamento vinha negativa e que a anemia tinha sido causada pela pneumonia. Passado quatro horas a médica chamou-me para o gabinete dela. Eu já estive nestas situações muitas vezes- sei bem quando um médico nos vai dar más notícias. Na realidade, achava que seria alguma doença auto-imune ou crónica pois as doenças malignas tinham sido já excluídas. A palavra leucemia entrou-me na alma e arrancou-ma. Chorei! Chorei por ele, pelo irmão, pelo pai dele, por toda a nossa família, pelo futuro agora incerto, pelo medo de ter medo, por não acreditar que pudesse ter a força necessária para o apoiar devidamente.
No dia seguinte o G foi transferido para o IPO onde fez nova biópsia. Lembro-me de perguntar à médica se havia a possibilidade, por mais ínfima, de isto ter sido um engano. Esse seria o diagnóstico, disse-nos ela. E esse foi de facto o diagnóstico. Leucemia Linfoblástica Aguda.
Pais separados, um filho de cinco anos, uma mãe a fazer tratamentos oncológicos e um diagnóstico destes. As nossas vidas iriam mudar mais uma vez. Acredito que tudo tem um propósito, um significado. Tentei perceber porque é que o meu filho tinha tido esse diagnóstico. Será que era para nós, eu e o seu pai, voltarmos a ser um casal e para todos nós voltarmos a ser uma família. Fazia sentido. Se fosse um filme, esse seria certamente o seu desfecho. Por mais que eu achasse essa ideia romântica e digna de uma grande história de amor, não fazia sentido nenhum para mim nem para nós. Olhei para o meu ex-companheiro e percebi que a possibilidade de voltarmos a ser um casal era nula. Eu já não o amava, ele também já não me amava. E nesse ano de separação as nossas diferenças ficaram mais óbvias. O que sentia agora por ele era muito carinho e gratidão por termos tido filhos juntos. Estava agora numa relação com um homem que eu amava muito e sentia-me muito amada e segura. Não iria abdicar dessa felicidade por nada.
Concentrei-me no que sei fazer melhor- agir de forma prática e proativa. Não quis saber detalhes de diagnóstico. Demorei semanas até ler o nome completo da doença. Não sou médica e não tinha intenções de consultar a internet. Eu não o podia ajudar nesse sentido.
Depois do choque inicial e de chorar tudo o que tinha para chorar naquele momento, senti uma enorme gratidão por mim, por ter tido cancro há menos de um ano.
O meu filho iria fazer quimioterapia como eu, iria ficar careca como eu estive e a referência do que é ter cancro era a experiência da mãe dele. Agradeci por ter passado pelos tratamentos de quimioterapia com tanta leveza, sem sintomas aparentes e a viver a minha vida naturalmente e sem restrições. Agradeci-me por não me ter importado com o meu aspeto exterior e por ter andado durante meses careca, a sentir-me bonita. Esse foi o exemplo do meu filho. No dia do primeiro tratamento de quimioterapia, o G viu o saco com um líquido laranja, chorou imenso pois teve muito medo que lhe fosse doer. Olhei-o nos olhos e disse-lhe que eu já tinha feito aquele tipo de tratamento e que não doía. Pedi-lhe para confiar em mim e perguntei-lhe se alguma vez lhe tinha mentido ou falhado com a minha palavra. Expliquei-lhe que a cor do tratamento não tinha qualquer significado. Era como beber água ou chá de frutos vermelhos. Ambos são líquidos. Acalmou-se e esticou o braço para a enfermeira administrar o fármaco. Sinto-me imensamente grata por ter podido ser este exemplo para ele, para ele agora ter uma experiência menos traumática, para não sentir medo pois nunca me viu a mim com medo, para ele ser uma força da natureza e aceitar tudo com a mesma leveza que eu. Tenho um orgulho enorme no meu filho e tenho um orgulho grandioso em nós. A nossa ligação está mais forte e a confiança e o amor que ele tem por mim são infinitos e incondicionais.
Como eu tinha feito há quatro anos, pedi ao meu filho para fazer uma acrónimo com a palavra cancro. “O que significa para ti o cancro,” perguntei-lhe eu. Eis a resposta simples dele:
Coragem Amor Nutrir Calma Respeito Orar
Fiquei encantada com a sua profundidade, com a sua aceitação, com a sua maturidade.
Temos tido coragem e força.
Temos tido amor um pelo outro, pela nossa família, pelos nossos amigos, pelas enfermeiras, pela médica, pela medula do G.
Temos nutrido a nossa alma e o nosso corpo. Temos nutrido o nosso amor e a confiança um no outro. Temos nutrido a aceitação incondicional pela situação e pela vida.
Temos tido calma em aceitar que às vezes preferíamos estar em casa e não no IPO. Temos tido calma com o corpo dele e com as vontades e mudanças de apetite e humores. Temos aprendido a ter calma connosco pois somos imperfeitos e nem sempre conseguimos fazer melhor.
Temos respeitado o dignóstico. Temos respeitado que temos que confiar na médica. Temos respeitado a médica e todas as suas diretrizes e conselhos. Temos respeitado as enfermeiras, sempre carinhosas. Respeito pelo tempo… o tempo que é necessário para o corpo se curar.
Temos orado e meditado. Temos agradecido estarmos juntos. Temos agradecido todo o amor e carinho que nos rodeia. Temos orado por nós, pela nossa cura.



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