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Querido Cancro do Giani

  • Foto do escritor: Sofia Caessa
    Sofia Caessa
  • 24 de jan. de 2022
  • 2 min de leitura

Querido Cancro do Giani,


Faz hoje dois anos que apareceste no corpo do meu filho. Ninguém estava à espera que aparecesses num corpo de uma criança de sete anos. Senti uma profunda tristeza e um medo avassalador quando soube. Eu própria tinha tido cancro meses antes deste diagnóstico.


Tu és diferente do cancro que eu tive. Não és um tumor nem algo palpável. Estás em todo o lado dentro do corpo do meu filho. Circulas dentro dele. Navegas na sua corrente sanguínea.







O Giani está a tratar-se há quase dois anos. 730 dias na vida de uma criança tão pequena. Porque decidiste vir para a vida dele, não sei. Mas, vieste. Confio em ti. Confio que tinhas de acontecer, que todos nós tínhamos de passar por toda esta experiência. Acredito que algo positivo tenha vindo desta experiência. Sinto o Giani uma criança mais saudável e forte. Sinto-o mais confiante e determinado. Só o futuro nos mostrará o impacto positivo que tu terás na vida dele. Talvez ele queira ser médico quando for grande por causa desta experiência. Não sei… Mas sei que, apesar destes dois anos terem sido intensos e verdadeiramente duros para todos nós, não houve um dia que tenha sentido ódio ou raiva por ti. Senti sempre aceitação e respeito pela tua presença.


Agora que já passaram dois anos desde o dia que soube que o Giani estava doente e que estamos a chegar ao fim dos tratamentos, quero agradecer-te por teres sido gentil com o meu filho. Decidiste ir embora passado um mês. Não quiseste ficar mais tempo e no tempo que ficaste foste gentil, não permitindo que ele sofresse o que poderia ter sofrido. É estranho dizer isso porque, como é óbvio, nestes 730 dias o meu filho sofreu muito. Houve muitas punções lombares, medulogramas, tratamentos agressivos, transfusões de sangue e plaquetas, dores, efeitos secundários… Mas ele manteve-se estoico e gracioso.


Perdoo-te, cancro, por teres entrado no corpo do meu filho de forma tão imprevisível e implacável. Perdoo-te pelo sofrimento que lhe causaste. Pela dor que me causaste a mim e a toda a nossa família. Perdoo-te por todas as noites que adormeci a imaginar que poderia perder o meu filho. Perdoo-te simplesmente…


E quero agradecer-te porque, como o meu tumor, mostraste-me o quão forte eu sou e do que sou capaz. Deste-me ferramentas para ser uma mãe melhor, para amar mais incondicionalmente, para compreender melhor o meu filho. Mostraste-me o quão corajoso e resiliente ele é. Mostraste-me que ele já aprendeu que, para viver a vida em plenitude, é preciso aceitação total. Nunca conheci uma pessoa como o Giani: corajoso, emotivo, sensível, franco. E acredito, no meu coração, que o Giani vai crescer e tornar-se num homem extraordinário!


Passei por muitos momentos de medo e angústia. Passei por muitos momentos de imaginar (ou até acreditar) que ele pudesse morrer. Mas o medo foi rapidamente dissipado e, no seu lugar, veio a absoluta aceitação e o desapego.


Amo-te porque amo o Giani infinitamente. Com todo o meu corpo, com toda a minha consciência, sem condições, sem barreiras, sem ses. Amar-te é amá-lo a ele. Amar-te é aceitar e amar as fragilidades do meu filho.



23 Janeiro 2022



 
 
 

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