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9 Lições que o Cancro me Ensinou

  • Foto do escritor: Sofia Caessa
    Sofia Caessa
  • 12 de fev. de 2021
  • 7 min de leitura

1. Amor Incondicional

Desde que tive cancro comecei a amar-me mais, de uma forma incondicional. Já não olho para os meus defeitos como defeitos, como algo negativo, mas como oportunidades de crescimento e aprendizagem. E aceitei que sou como sou, que não sou perfeita e nunca o serei. Comecei a dar mais valor às minhas qualidades. Quanto mais aceitava e valorizava as minhas qualidades, mais fortes elas se tornavam e menos fortes se tornavam os meus defeitos. Esta aprendizagem tornou-me uma pessoa mais equilibrada. Amar-me incondicional não é aceitar as minhas qualidades menos boas e deixar de crescer. Pelo contrário, por me amar mais tenho maior capacidade de lidar com os meus defeitos.

Encarei o meu tumor como uma parte de mim que precisava de muito amor e carinho. Nunca confrontei o tumor de forma negativa ou destrutiva. Tratei o meu tumor quase como um filho, algo bonito que precisa de muito amor. Não falo mal dele, não o condeno nem critico. É o meu tumor, sou eu. Tive a minha postura em relação ao cancro do meu filho. Sim, as células tornaram-se células nefastas, mas continuam a ser partes ínfimas do meu filho. Como posso odiá-las ou tratá-las mal? Na sua essência são o meu filho. E eu amo o meu filho incondicionalmente, com todas as suas qualidades e todos os seus defeitos e todos as suas idiossincrasia. Mesmo as suas células malignas. Aceito-as e amo-as. É um sentimento muito poderoso conseguir amar algo que na realidade está a tentar destruir a pessoa que mais amamos no mundo. Mas quando conseguimos chegar lá é maravilhoso. Como aceitar a nossa mortalidade, é uma leveza de espírito, uma paz incrível. Não é uma luta contra, é um percurso com. Eu, o meu filho e as suas células malignas, juntos para o seu corpo ser recheado novamente somente de células boas.


2. Aceitar a minha Mortalidade

Acredito que a lição mais importante, que provavelmente não teria conseguido de outra forma, foi a aceitação da morte. A aceitação da minha morte e da morte dos meus filhos. Aceitar a nossa mortalidade é dos melhores presentes que nos podemos dar. Desvanecem os bloqueios emocionais, os medos, o peso da vida. Parece que nos tornamos mais leves. A vida torna-se mais leve. Nos últimos meses tenho refletido bastante sobre a morte. É importante termos uma crença em relação à morte. O que é a morte para nós? O que acreditamos que vai acontecer depois da morte? Pode ser uma crença baseada numa religião ou algo que imaginamos. O importante é acreditarmos realmente em algo e que esse algo nos traga paz. Quer queiramos ou não, a possibilidade da morte está presente todos os dias.


3. Aceitar as minhas Emoções

Aceitar todas as emoções que sinto, sem vergonha e sem culpa. Toda a tristeza, todo o desespero, toda a revolta, todo o medo, toda a raiva, todo o desconforto. Apesar de ser uma pessoa positiva e otimista, sou um ser humano complexo com uma panóplia de emoções. Não as posso ignorar. Aceito que por vezes vou sentir emoções muito negativas e fortes. Em vez de as reprimir e tentar afastá-las, aceito-as e sinto-as. Sempre tive dificuldade em chorar. Reprimia a tristeza e para não a aceitar e, por consequência, ela transformava-se em raiva. Desde que tive cancro tenho mais facilidade em aceitar e sentir tristeza. Choro sem controlar as lágrimas. No fundo tornei-me mais vulnerável e isso não diminui a minha força. Pelo contrário, sinto que sou uma mulher mais forte por ser mais vulnerável. Choro quando me sinto triste e isso é tão bom. Choro quando preciso. E deixo-me ir ao fundo. Permito-me ter aqueles dias em que sinto desespero e que tudo na minha vida é negativo. Choro, sou pessimista, fecho-me. E o facto de poder fazer isso dá-me forças para voltar a ser otimista e positiva e sentir gratidão pela minha vida.


4. Aceitar o Medo

Da mesma forma que é importante aceitar as minhas emoções, aceitar o medo é necessário. No meu primeiro cancro eu tinha muito medo de sentir medo. Era um sentimento um tanto irónico. Ter medo do medo. Eu sabia bem que o medo era muito prejudicial e que poderia impedir-me de conseguir ultrapassar os tratamentos. Mas, rejeitar o medo é igualmente prejudicial. É um sentimento legítimo e natural. Teria de ser capaz de o sentir, de o confrontar, sem que ele me controlasse. Foi transformador deixar-me sentir esse medo de uma forma consciente e racional. Sim, tenho medo pois tenho cancro e tenho um tumor de 11cm. Sim, tenho medo de receber o resultado do PET. Sim, tenho medo que o meu filho não aguente os tratamentos. Sentir o medo é importante, é um sentimento protetor. É o que nos dá a capacidade de nos defendermos e sabermos o que é ou não perigoso. Mas, aceitarmos e lidarmos com o medo é muito diferente de sermos dominados pelo medo. Consegui chegar a um equilíbrio em que sou capaz de sentir o medo, sem que este me controle.


5. Empatia

Esta lição foi muito interessante pois aprendi que a empatia num estado incondicional é quase impossível. Quando tive cancro da primeira vez a minha melhor amiga, desde os 11 anos, afastou-se. Não percebi. Como é que a minha melhor amiga, que me conhecia desde miúda, me estava a rejeitar? Já não gostava de mim? Com o tempo fui percebendo que ela não tinha capacidades emocionais para lidar com a minha doença. Ela recusava-se a aceitar que eu estava doente e que eu poderia morrer. Ela estava a proteger-se. Claro que ao fazer isso ela estava a prejudicar-me a mim. Durante algum tempo revoltei-me com a atitude dela. Zanguei-me com ela. Acabámos por fazer as pazes, mas um abismo subtil manteve-se entre nós. Tentei compreender o que se passava com ela. E compreender a sua falta de empatia fez-me sentir empatia por ela. Na realidade não sei que tipo de amiga eu teria sido se uma amiga próxima minha tivesse cancro, antes de eu ter tido, claro. Não sei se me teria afastado para me proteger. Não sei se conseguiria sentir empatia e ter forças para a apoiar.

Quando o Gi esteve a ser tratado, conheci várias mães. As mães do IPO. Com essas mães fui confrontada com uma série de doenças e situações devastadoras. Recidivas, crianças que não sobreviveram. Vi-me a mim numa posição de não conseguir sentir a empatia que gostaria de sentir. Tenho um filho com uma doença muito grave, passando pela possibilidade de morrer, e mesmo assim eu não conseguia sentir na íntegra todos os sentimentos em relação a uma mãe ter perdido o filho. Fechei-me, senti-me dormente. Bem sei que não conhecia a mãe nem o menino pessoalmente, mas era uma criança que poderia ter sido a minha. Podia ter sido eu a perder o meu filho. Será que não temos capacidade de sentir a dor dos outros até passarmos por ela? Esta questão fez-me repensar no que é a empatia, na minha própria capacidade ou incapacidade de empatia.

Sinto que tenho maior capacidade de sentir empatia pelo outros. E, por outro lado, sinto maior empatia e aceitação pela incapacidade de empatia dos outros.




6. Gratidão

Aprendi a sentir gratidão por tudo que está presente na minha vida, inclusive o cancro. Sinto gratidão pela minha vida, mesmo tendo passado por tantos obstáculos. Sinto gratidão pelas pessoas que tenho na minha vida. Sinto-me imensamente grata pelos filhos que tenho. Sinto-me grata por ter tido o cancro, pois foi ele que me fez crescer e me fez ver a vida com outros olhos. Sou uma pessoa melhor por ter tido cancro. Não posso dizer que estou grata pelo cancro do meu filho, mas estou grata por eu ter tido cancro antes dele pois deu-me ferramentas valiosas que me permitiram ajudá-lo. Estou grata ao meu corpo porque apesar das suas fragilidades é um corpo bastante forte. Estou grata por ter esta força emocional que me permite olhar a vida com um sorriso e com coragem.

E estou grata pela vida. Por estar vida, por ter nascido neste século, neste país, na minha família.


7. Perdão

Quando somos confrontados com a morte, entramos num processo de preparação para a morte. Em primeiro lugar tive de me perdoar a mim. Sou imperfeita. Já cometi tantos erros, tantas falhas de julgamento, tantas decisões insensatas. Esses erros e essas falhas pesavam em mim e bloqueavam-me. Ainda hoje sinto esse peso em certas alturas. Perdoo-me por não ter feito melhor ou por ter feito muito mal. Perdoo-me pelos erros que cometi. Perdoo-me e prometo-me a mim mesma que terei mais cuidado com as decisões que tomo no futuro.

Depois, perdoei as pessoas que me magoaram. Não consigo mudar ninguém e não consigo mudar o passado. Só tenho a capacidade de mudar a minha perspetiva em relação à pessoa ou à situação. Mudar de perspetiva passa por perdoar e tentar reconstruir a relação. Ou perdoar e decidir que essa pessoa ou essa situação é incompatível comigo.



8. Gentileza

Como o perdão, aprendi a ser mais gentil. Mais gentil com as pessoas que amo, as pessoas que fazem parte da minha vida, mas sobretudo comigo mesma. É tão fácil sermos duros connosco. Muitas vezes somos mais duros connosco do que com os outros. Tento ser menos exigente e menos crítica. Com os outros e comigo. Como com o perdão, tento ser mais gentil e perdoar-me pelos meus erros. Sou também mais gentil e tolerante com os outros. Com as pessoas que amo e com as pessoas que não conheço. Estamos todos a tentar dar o nosso melhor. Nem sempre fazemos o mais acertado, nem sempre temos bons dias.


9. Respeito

Aprendi a respeitar-me e a exigir respeito. Consigo ser assertiva e dizer “não” quando acho adequado. Já não faço as coisas para agradar ou para ser querida.

Aprendi a ouvir o meu corpo e a respeitá-lo. Nem sempre é fácil, mas é uma aprendizagem diária.

Aprendi a respeitar os outros de uma forma mais incondicional. Respeito as suas opiniões e as suas perspectivas diferentes. E respeitar os outros implica demonstrar ou verbalizar a gratidão e o amor que sinto por eles. Dizer obrigada, dizer amo-te, dizer desculpa.



Fevereiro 2021








 
 
 

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