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Gratidão é um Estado de Espírito

  • Foto do escritor: Sofia Caessa
    Sofia Caessa
  • 21 de jun. de 2021
  • 4 min de leitura

Gratidão.

Uma palavra simples que é capaz de caber o mundo todo lá dentro.

Como podemos sentir gratidão quando parece que toda a nossa vida é pautada por sofrimento, injustiça e crueldade? Como nos sentimos gratos por uma vida dura?

Na sociedade em que vivemos presentemente, é tão fácil sentirmo-nos desligados e desconectados, não havendo espaço para sentir gratidão. Podemo-nos sentir agradecidos por coisas grandes: uma promoção ou um automóvel topo de gama. Mas, será que paramos para agradecer a delicadeza da vida, o chilrar de um pássaro no jardim, o pôr do sol na praia, o beber uma chávena de café quentinho logo pela manhã, acordar de madrugada e sentir a calma do mundo? Paramos para agradecer termos água potável, vivermos num país seguro, termos liberdade? Vivemos a vida levianamente, agradecendo somente as coisas que almejamos, tomando por garantido o que muitos, noutras partes do planeta, almejam para eles próprios.




É muito poderoso termos a capacidade de ver o bom num dia que só nos apresenta obstáculos e desafios. Quando temos a capacidade de o fazer, a vida ganha outra forma, nós ganhamos um poder quase mágico. Uma parte de nós volta à nossa infância, onde víamos tudo de uma forma colorida, bonita e perfeita, mesmo que tudo à nossa volta estivesse a desmoronar. O medo era dominado pela esperança, o amor vencia sempre o ódio, a inocência conquistava a incerteza. Por mais adversidades que a vida nos dava, nós enquanto crianças, tínhamos a capacidade de ficarmos encantados pelas coisas pequenas do dia-a-dia: uma borboleta colorida a esvoaçar no jardim, chapinhar numa poça de água, comer bolachas acabadas de sair do forno, encontrar um caranguejo à beira-mar. As crianças estão num estado constante de gratidão pela vida, por viver, por descobrir, por simplesmente estarem aqui presentes.



Sentir gratidão pelas pequenas coisas do dia-a-dia transforma-se num ciclo de apreciar o bom na vida- quanto mais nos sentimos gratos pelas “pequenas coisas” mais essas pequenas coisas estarão visíveis na nossa vida.

Eu não tinha noção de que era uma pessoa grata. Não agradecia vezes suficientes tudo o que os meus pais faziam por mim. Não agradecia o carinho do meu irmão. Mas, a gratidão não é (apenas) dizer obrigada. Não é dizer obrigada pelas boas ações que recebemos dos outros, não é dizer obrigada pelas coisas materiais que nos foram dadas. Gratidão é muito mais que uma palavra ou um sentimento. Gratidão é um estado de espírito, um modo de vida. Não é fácil cultivar a gratidão como um estado de espírito. Eu já o fazia de maneira subconsciente há anos. Quando nascemos com todas as probabilidades contra nós, desenvolvemos o instinto da gratidão, o agradecer pelo simples facto de estarmos vivos. O estar vivo é um dado tão adquirido que nem nos faz sentido sentirmos gratidão por isso. A maior parte das pessoas vive a vida sem a consciência que cada dia é uma bênção e um privilégio. Quando nos confrontamos com a possibilidade da morte, desde criança, damo-nos conta que o estar vivo não é um dado adquirido, mas algo frágil, algo à qual nos temos de agarrar com uma força inexorável. Num só segundo a nossa vida pode acabar. E ninguém está imune a que isso lhe aconteça. É uma condição para termos vida- a morte pode chegar quando menos esperamos. Sempre me senti grata pela vida, por ter a possibilidade de viver a vida como todas as outras pessoas e descobrir o que é ser uma criança, uma rapariga, uma mulher; descobrir o que é estar apaixonada, amar, tomar decisões, rir, chorar, ter o coração partido, engravidar, dar à luz, ser mãe. Sempre senti o meu viver como uma dádiva e não um dado adquirido. Alegro-me com coisas pequenas e aparentemente insignificantes pois é nas pequenas coisas que saboreamos o quão maravilhosa a vida é.


Há uns dias, enquanto me penteava, o meu filho mais novo ficou parado a olhar-me e disse-me “Tens cabelos brancos.” Olhei-me ao espelho. Do lado direito tenho uma cascata de cabelo branco. Sorri para mim, sorri de felicidade. Estou a envelhecer. Estou a envelhecer e o meu filho está a crescer. Todos os dias eu envelheço um dia e ele cresce mais outro.

Se estou a envelhecer, estou a viver. Penteei esses cabelos brancos com orgulho e gratidão. Quero um dia olhar o meu filho nos seus olhos grandes e intensos e dizer-lhe, enquanto lhe afasto uma madeixa de cabelo dos olhos, “Estás a ficar com cabelos brancos, filho.”

Gratidão é termos estes pequenos momentos todos os dias. É tão fácil sentirmo-nos gratos pelas coisas grandes. Casa nova, emprego de sonho, casamento, nascimentos de filhos. São naturalmente momentos e situações para sentirmos uma imensa gratidão. Mas, não nos casamos todos os dias, nem todos os anos. Não mudamos de emprego todas as semanas. Nada destes eventos acontecem com frequência e, para algumas pessoas, nem chegam a acontecer. Mas, todos os dias, centenas de coisas e eventos pequeninos acontecem.

Pode ser acordar às 6h00, dar a quimioterapia oral ao meu filho, descer para a sala, escura e silenciosa, fazer café, sentir o aroma do café a encher a sala, sentir ao longe as três vidas que mais amo a dormirem tranquilamente, sentar-me ao computador, colocar música altíssima nos headphones e chorar enquanto escrevo este texto sobre a gratidão. E, às vezes, acontece que enquanto escrevo com a música alta, perco a noção de tempo e vejo quatros pés pequenos a descer pelas escadas, quatros olhos gigantes a espreitar por entre os degraus, dois sorrisos de amor transbordante. Sinto-me grata por estes momentos e essa é a verdadeira recompensa.


Sofia Caessa

Junho 2021



 
 
 

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