Lembro-me...
- Sofia Caessa
- 23 de jan. de 2021
- 2 min de leitura
Faz hoje um ano que soube que o Gi tinha leucemia. Nem dá para acreditar que já passou um ano. Por um lado parece que foi ontem que ouvi esse diagnóstico, por outro parece que isso aconteceu noutra vida.
Lembro-me tão bem desse dia.

Lembro-me de termos ido comer ao Burger King pela primeira vez.
Lembro-me do sabor do óleo das batatas fritas.
Lembro-me do olhar da médica quando me pediu para a acompanhar ao gabinete dela. Lembro-me da sensação de deixar o Gi na sala de atividades, sabendo que quando voltasse toda a nossa vida seria diferente.
Lembro-me do meu choro, estagnado, recusando-se a sair para for a, um grito perdido dentro de uma caverna. Lembro-me do olhar de compaixão e impotência da médica. Lembro-me de sentir todos os órgãos dentro do meu corpo, como se eles quisessem explodir ou desistir.
Lembro-me da escurdião e do silêncio do corredor onde me escondi para telefonar. Lembro-me da primeira vez que a palavra leucemia tocou nos meus lábios e foi soprada para o mundo.
Lembro-me do Gi escondido debaixo da mesa de refeições no quarto, aos gritos pois não queria ser picado para lhe colocarem o acesso.
Lembro-me de falar com o Gi, como se fosse um pequeno animal selvagem indefeso, para o ajudar.
Lembro-me da vontade de querer levá-lo para casa.
Lembro-me do olhar dele, sem saber o que se passava, mas a perceber que era sério. Lembro-me do olhar de medo nos olhos do Gi.
Lembro-me dos olhares das enfermeiras. Um olhar pesado, um olhar com tons de morte. Lembro-me de ver o pai do Gi a atravessar o mesmo corredor escuro até a mim.
Lembro-me do nosso abraço, das nossas lágrimas que ficariam para sempre abraçadas. Lembro-me de me despedir do Gi para eu ir para casa dormir.
Lembro-me de conduzir nas ruas vazias, música a tocar na rádio.
Lembro-me de todas as lágrimas que limpei.
Lembro-me de me deitar na cama, atordoada, desesperada.
Lembro-me de me pedir calma para poder descansar e ir ter com o Gi no dia seguinte. Lembro-me de pensar que no dia seguinte o Gi iria ser transferido para o IPO e que nesse dia a realidade bater-me-ia à porta.
Lembro-me de fechar os olhos e imaginar que a palavra leucemia era uma palavra inventada e que não queria dizer o que na realidade é.
Lembro-me tão bem deste dia e hoje estou grata por já ter passado um ano, por termos escalado tantas montanhas com coragem e sorrisos.
Lembro-me de me ter sentido impotente como mãe, de ter sentido que tinha falhado como mãe porque não consegui protegê-lo. Hoje sei que o protegi, nos pequenos e grandes atos. E hoje somos mais fortes e mais corajosos.
Lembro-me de todas estas emoções e sensações, de todos os olhares e sei que tudo isto estará presente em mim para o resto dos meus dias. Como uma cicatriz no nosso corpo.
23 Janeiro 2021



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