Mãe do IPO
- Sofia Caessa
- 3 de mai. de 2021
- 6 min de leitura
Atualizado: 6 de mai. de 2021
A minha querida amiga Dalila escreveu um post sobre o Dia da Mãe, homenageando as mães do IPO. Um texto comovente e forte. Um texto honesto. E um texto que me inspirou a escrever sobre o mesmo tema.
Ser mãe do IPO é sermos muito para além de mãe. É sermos um ser que desconhecíamos. Um ser sobrenatural com capacidades extraordinárias. É como se fossemos diversas mães num só corpo.
Ser mãe do IPO é dos maiores desafios que uma mãe (ou pai) pode ter. Não há nada que eu possa dizer nem há palavras fortes que eu possa escrever que consigam descrever o que é realmente ser mãe do IPO.
É conseguir sorrir quando nos sentimos quebradas.
É acreditar na vida quando a morte nos olha nos olhos.
São as noites mal dormidas, as dores nas costas, as refeições comidas à pressa ou por obrigação.
As olheiras que o nosso filho não repara porque, para ele, estamos sempre bonitas.
São as noites e os dias passados no 7º Piso, a ouvir o choro de sofrimento das crianças, a sentir o desespero dos pais, a ouvir os passos de uma mãe que acorda de madrugada para ir à casa-de-banho e tu pensas como será que aquela mãe se sente, como será que o filho dela está.
É ouvir o som agudo do Bobby a apitar.
É o cheiro típico de hospital, o cheiro a desinfectante, é o cheiro a vazio e solidão.
O choro destas crianças fica gravado na nossa alma. O som do Bobby apita freneticamente no nosso cérebro sem nos darmos conta.
É saber os nomes de medicamentos com nomes indecifráveis.
São as dúvidas e os medos.
É chorar infinitas lágrimas porque nenhuma criança deveria sofrer assim.
É assistir ao teu filho a fazer uma punção lombar. É segurar no teu filho enquanto ele está numa frenética mistura de consciência entorpecida e de gritaria incontrolável enquanto lhe enfiam uma agulha entre as vértebras. É desejar poder pegar no teu filho e correr porta fora para impedir que lhe façam a punção lombar. É fechar os olhos para não ver a agulha comprida e afiada que irá atravessar a pele delicada do teu filho. É desejar que a medicina estivesse tão avançada que o teu filho pudesse ser tratado através do teu corpo e que fosses tu a passar por tudo isto.
É veres medo nos olhos do teu filho.
É veres cansaço no corpo do teu filho.
É segurar o teu filho enquanto ele faz xixi num urinol para o medires. É medir xixi, é levar com xixi para cima de ti às 3 da madrugada, é sentir alívio ao ver a quantidade ideal de xixi que o teu filho fez.
É ver beleza no teu filho, careca, inchado, quase irreconhecível.
É dar-lhe banho com um cuidado extremo para que o cateter não se molhe.
É dizer-lhe não, vezes sem conta, aos seus pedidos de ir nadar no mar.
É acordar todos os dias e dar-lhe um comprimido citotóxico, que lhe salva a vida, mas questionas-te acerca dos efeitos a longo prazo. É imaginar como será o futuro do teu filho. É rezar para que estas memórias não o definam como adulto.
É percorrer os corredores do 7º piso com o coração apertado com a consciência que uma daquelas crianças não irá sobreviver e é chorar pelo sofrimento dessa criança e da sua família.
É engolir em seco quando vês uma mãe a entrar pelo Hospital de Dia pela primeira vez, medo estampado na cara, a alma a desmoronar-se, a solidão a instalar-se.
É ir ao Hospital de Dia e ter consciência que há tantas crianças a passar pelo mesmo. E que amanhã uma nova criança irá entrar para lá pela primeira vez.
É ver o teu filho incapaz de comer. É vê-lo rejeitar a sua comida favorita.
São o contar os dias para que o teu filho chegue a uma nova etapa, mais perto da cura.
É chorar infinitas lágrimas porque, do nada, damo-nos conta do quão injusto tudo isto é.
É testemunhar crianças que não sobreviveram. É testemunhar o sofrimento da mãe que se despede do seu filho, que não poderá mais vê-lo crescer, que fica com esse abismo no seu coração. É sentir essa perda como se fosse tua.
É o constante “Mas, está a correr tudo bem, certo?” e dizer que sim quando sentimos que ninguém aguenta saber que o nosso “correr tudo bem” é tão diferente e subjetivo.
É o cansaço como não imaginaste poder sentir.
É o cansaço que tens de ignorar para ter energia para brincar com o teu filho.
É lidar com os humores do teu filho porque os corticoides invadem-lhe as emoções, transformam-no numa criança irritada, zangada, emocional, descontrolada. É abraçar, segurar, acarinhar, e sentires que também tu estás no limite de te descontrolares. É compreender, dialogar, tolerar, mas contares os dias até o teu filho terminar aquela medicação para ters o teu filho carinhoso de volta.
É querer aproveitar o crescimento dos teus filhos, mas rezar que os dias passem mais rapidamente para poderes chegar ao último dia de tratamento.
É ter uma noção de tempo completamente diferente de outra mãe.
É precisar de um abraço.
É precisar de ouvir “És uma mãe extraordinária! Estás a fazer tudo bem.” Porque nem sempre tens a capacidade de sentir isso.
É o querer chorar todo o teu desespero, mas teres medo de não conseguires recuperar de tamanho sofrimento e de ficares paralizada num estado de dormência emocional.
É querer descansar.
É olhares-te ao espelho à procura de sinais físicos de todo esta exaustão.
É saber que não existe nenhuma palavra que defina exatamente o que sentes e pelo que passas. É saber que nenhuma palavra é capaz de resumir o que sentes no corpo e na alma.
É ver o teu filho a tomar uma mão cheia de comprimidos como se fosse um homem adulto. É vê-lo a engolir esses mesmos medicamentos com naturalidade porque para esta criança tomar 8 comprimidos de uma toma já se tornou rotineiro.
É gritar sem som, para o vazio, sem que ninguém te oiça.
É querer devolver ao teu filho esta parte da infância que lhe foi roubada.
É o desespero constante.
É o medo permanente.
É a reação de medo quando o teu filho diz que não se sente bem.
É ir à casa-de-banho do Hospital de Dia só para poderes chorar sozinha.
É entrares no Hospital de Dia e sorrires através do teu olhar a outra mãe. É querer abraçar essa mãe e dizer-lhe “eu sei o que sentes, eu sinto o mesmo. Vamos chorar juntas."
É brincares e fazeres maluquices com o teu filho enquanto a tua alma está no chão, desmontada.
É beijar as lágrimas do teu filho quando ele chora que está cansado de estar doente.
É querer fingir que nada disto está a acontecer e saberes que é humanamente impossível.
É sentir solidão porque a verdade é que as pessoas afastam-se de ti por medo, por não conseguirem lidar com a tua situação. Serás para sempre a mãe do filho com cancro. Este rótulo é permanente.
É haver a vida antes (durante) e depois do cancro. É saber que a tua vida nunca será a mesma.
É conhecer todas as cicatrizes do corpo do teu filho.
É querer desistir, é não ter forças para aguentar a pancada.
É perdoares-te por todas as tuas falhas, todas as tuas imperfeições,todos os teus erros.
É perdoares-te por todas as vezes que poderias ter sido uma mãe mais presente, mais carinhosa, mais paciente.
É ser mãe do IPO para sempre porque cancro é para toda a vida.
Ser mãe do IPO é sentir as emoções mais fortemente que outra mãe. A revolta, o medo, o instinto de proteção, as alegrias, as conquistas.
Ser mãe do IPO é sentir “o seu filho tem leucemia” a esfaquear-te repetidas vezes, sem misericórdia nenhuma.
Ser mãe do IPO é sentir culpa por o teu filho ter ficado doente, mesmo sabendo racionalmente que não és responsável por isto. É pensar em todas as decisões que tomaste para apontares a causa disto. Amamentei demais? De menos? Não o levei ao médico na altura certa? Devia ter dado as vacinas fora do plano nacional? Devia ter feito aquilo? Não devia ter feito isto?
É um desejo incontrolável de querer voltar atrás no tempo, sabendo que isso não iria mudar nada.
Ser mãe do IPO é todos os dias sorrir, ser forte, ter esperança, ter empatia, ter medo, sentir o coração partido, sentir culpa, sentir mágoa, sentir cansaço, saborear os pequenos momentos que a vida nos dá, é ser a mãe do filho com cancro.



Adoro vos