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O Medo de Morrer e o Desapego

  • Foto do escritor: Sofia Caessa
    Sofia Caessa
  • 2 de jul. de 2020
  • 5 min de leitura

A morte está sempre presente. A vida está sempre presente. Ambas coexistem, como o sol e a lua. Não há céu sem lua ou sem sol, tal como não há vida sem morte. Uma possibilita a existência da outra. Quando nascemos é-nos oferecida a dádiva da vida e a certeza da morte. Eu estive perante a possibilidade da morte várias vezes na minha vida. Assim que nasci, tendo um defeito cardíaco grave. Durante os meus primeiros oito meses em que esperei pela cirurgia correctiva. Durante a cirurgia para corrigir o defeito cardíaco. Após a cirurgia, seis ou sete anos de tempo de observação em que o corpo poderia rejeitar as alterações que foram feitas ao coração. E inúmeras situações que poderei ter estado muito perto da morte, mas não estive precisamente no “sítio errado, na altura errada”. A possibilidade de morrer e o medo de morrer foram uma constante na minha vida. Um sentimento tão orgânico e intrínseco que eu nem tenho consciência dele. Faz parte de mim, como ter braços compridos ou sardas.

Quando fui diagnosticada com cancro, essa possibilidade de morrer tornou-se real. Havia de facto uma possibilidade concreta de eu morrer. Um dia, fui buscar o meu filho à escola, levando o mais novo comigo. Observei o mais velho de longe, senti o calor do sol, ouvi os risos das crianças no recreio, e pensei, “E se eu morrer?” Vivo esta vida há 35 anos. Podia ter morrido logo no início da minha vida, mas por alguma razão, isso não aconteceu. Nasci numa família que me ama, que teve recursos para eu poder ser operada. Nasci num país bonito onde a paz e o sol reinam. Passei a minha infância em vários países e tive amigos de diversas nacionalidades e religiões. Vivi em países e cidades fascinantes. Tive a liberdade para seguir os meus sonhos. Sei o que é amar. Sei o que é ser amada. Vi o nascer e o pôr do sol em várias cidades. Sei o que é a felicidade. Sei o que é estar grávida e gerar vida. Já senti um ser humano crescer dentro de mim. Sei o que é amor incondicional. Tenho o privilégio e honra de conhecer os meus filhos e de estar presente no seu crescimento. Tenho o privilégio de ser livre, ser quem sou, fazer o que quero. “E se eu morrer agora?” Que privilégio seria morrer depois de ter vivido tanto. Estou grata por ter vivido tudo isto. E, se eu morresse, morreria sem sofrimento, ao lado das pessoas que mais amo. O meu coração encheu-se de gratidão e aceitação. Seria uma bênção se eu morresse assim, tal como uma mulher velhinha, rodeada da sua família, que morre em paz no seu sono. Essa sensação foi libertadora. Ninguém precisa verdadeiramente de mim. A vida continuará sem mim. Se for mesmo a altura de eu partir, não há nada que me prenda aqui. Talvez o meu propósito na vida tenha sido trazer estes dois filhos maravilhosos ao mundo.



Desapeguei-me. Se for mesmo a altura de eu partir, não estarei apegada ao medo de morrer ou ao que eu vou perder. Libertei-me desse medo. Em vez de medo, comecei a sentir gratidão. Gratidão por tudo o que tinha vivido até então. Gratidão por ter tido os meus filhos e por conhecê-los e amá-los. Gratidão por saber da possibilidade de morrer. Comecei a viver a vida cada dia, não como o cliché “vive cada dia como se fosse o último”, mas sim como mais uma dádiva. Cada dia acordava e sentia que era uma dádiva poder ter mais um dia para ser quem sou, fazer o que quero, amar profundamente, sentir o sol, rir, sorrir, dar muitos beijinhos aos meus filhos. É tudo uma questão de perspectiva. Mudei a minha perspectiva e o mundo abriu-se a mim. Estou grata pela possibilidade de morrer pois isso significa que eu estou viva. Estou grata por não estar doente e poder viver. Não tenho medo de morrer. Esse medo foi substituído por uma vontade poderosa de “quero viver”. Quero viver porque viver é bom, é desafiante, é estranho, é maravilhoso e, por vezes, é assustador. Quero viver porque quero passar todos os dias a amar e a conhecer os meus filhos. Quero viver porque eu e os meus filhos ainda temos muito para aprender uns com os outros.

Quero viver porque sim. Não quero não morrer porque isso é uma ilusão, vou morrer um dia.  Simplesmente quero viver.

11 de Maio, 2017


Desta vez fui confrontada, não com a minha morte, mas com a possibilidade de morte do meu filho. É um confronto muito duro, muito angustiante, que nenhuma mãe ou pai deveria ter que sentir. Mas, é importante entregarmo-nos ao confronto. É importante aceitarmos essa possibilidade. Imaginei a minha vida sem o meu filho. Lágrimas caíram pela minha face, senti um nó no coração, no estômago, senti-me agoniada, senti uma dor como nunca tinha sentido. Se ele partir, eu seria uma mulher tão abençoada por ter sido mãe deste pequeno ser humano maravilhoso. Imaginei que ele faria sempre parte da nossa vida, nas memórias, nas coisas pequenas do dia-a-dia, no vocabulário que ele inventou e que agora está enraizado no vocabulário de toda a família.  As memórias dele seriam lenha para o amor infinito que todos sentem por ele. Se ele partir, como seria a vida do irmão dele? Teria que transformar a minha dor em amor. Não quereria que o meu sofrimento fizesse parte da infância do meu filho. Teríamos que usar o nosso amor para viver a nossa vida sem o Gi. 


Imaginei o dia da partida dele. Um dia maravilhoso com muitos amigos, muito amor, muita alegria. Chorei e aceitei que isso poderia acontecer e que, se acontecesse, esse dia teria que ser o mais luminoso e bonito possível, uma verdadeira celebração da criança linda que ele é. 


Estes pensamentos foram muito duros. Libertei-me deste peso, deste medo que estava escondido dentro da minha alma. Trouxe-o cá para fora, olhei-o nos olhos e aceitei o desafio de imaginar a minha vida sem o Gi. E depois de imaginar essa situação, o medo esvoaçou para o céu como um pássaro em liberdade. 


Não controlo nada. Não consegui evitar que ele tivesse leucemia. Posso fazer tudo que esteja ao meu alcance para tratar bem dele, mas a realidade é que eu não posso fazer nada para evitar a morte dele. Ou seja, lutar contra esse medo e essa possibilidade seria usar o meu amor e a minha força para o oposto do que ele merece neste momento. Mantenho-me forte e com energia para estar com ele, para o acompanhar aos tratamentos e às intervenções. Mantenho-me feliz e bem-disposta para ser a mãe que sempre fui, brincamos, fazemos disparates, somos felizes. Mantenho-me forte para lhe dar colo nos dias em que ele chora por ter medo de ir fazer uma punção lombar ou porque simplesmente sente-se cansado de estar doente. Estes colinhos custam muito, sinto a alma a ser esfaqueada. Há dias que me deito ao lado dele, vejo o cateter pendurado no peito e abraço-o, desejando ter poderes mágicos para o proteger, para lhe tirar a doença do corpo dele. Fecho os olhos e sussurro-lhe que vou cuidar dele sempre, que darei sempre o meu melhor. E digo-lhe que o amo. Sinto a respiração dele, o calor que emana do corpo pequenino e sinto-me em paz. O amor que recebo todos os dias dos meus filhos é tão imenso que me dá superpoderes. Sou capaz de tudo para os proteger, para lhes dar tudo o que tenho de melhor em mim.  

Em mim ele vê amor, vê um futuro maravilhoso, vê felicidade. Isso, acredito, ajuda-o a lidar com a doença dele. Ainda é muito novo para pensar se poderá morrer desta doença. Não lhe escondo nada e ele sabe o que tem, os medicamentos que toma, os tratamentos que faz, sabe tudo relacionado com a sua doença. Mas, não sabe a verdadeira dimensão. Afinal de contas, a própria mãe já teve “esta” doença e agora está bem. Ele sabe tudo, mas as questões hipotéticas não fazem parte do nosso vocabulário. O hipotético é simplesmente um talvez. E connosco não há talvezes. Comigo não há talvezes.


Maio 2020



 
 
 

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