Quando o Cancro Regressa
- Sofia Caessa
- 21 de abr. de 2020
- 3 min de leitura
O meu segundo diagnóstico
Assim que, após uma ressonância magnética, me sugeriram fazer uma biópsia, o meu instinto sussurrou-me que o cancro tinha regressado. Não fui logo marcar a biópsia. Não quis logo saber que o cancro tinha de facto regressado. Primeiro, tinha que conversar comigo e reavaliar a minha vida. Parada na minha vida, olhei para ela e para todas as suas facetas. O primeiro cancro não tinha sido aprendizagem suficiente para mim. Algo se passava na minha vida que não me estava a trazer harmonia e bem-estar. Na altura tinha os meus dois filhos (com 3 e 6 anos aproximadamente) exclusivamente em casa comigo. Eu tratava do percurso escolar deles: as atividades e as aprendizagens. Para além disso, cuidava (mal, diga-se de passagem) da nossa casa e cozinhava todas as refeições (bem, se me permitem a falta de modéstia). Muitos dias traziam-me alegria, gratidão, felicidade. Adorava poder acompanhar o crescimento e a aprendizagem dos meus filhos. Adorava vê-los a ultrapassar os desafios que lhes lançava, adorava sujar as mãos com tinta e cola! Adorava inventar e explorar! Eram dias bonitos, apesar de cansativos. Mas, algo faltava… Algo não estava no sítio certo. Eu dava tanto aos meus filhos, ao meu companheiro, à minha casa (sim!, mesmo sendo má dona de casa!) e apercebi-me que já não existia a Sofia. Tinha-a perdido.
A Sofia Sonhadora, cheia de ideias e projetos, estava a morrer. O que fazia eu para me sentir realizada como indivíduo desconectado do rótulo mãe ou companheira? Nada.
Sentia saudades da minha vida antiga, da minha escola de cinema para crianças, dos meus ateliês de escrita criativa, de ter disposição para escrever. E essas saudades, naturalmente, trouxeram-me sentimentos de culpa pois olhava para os meus filhos e via que lhes estava a oferecer tanto- o meu tempo, o meu amor, a minha criatividade, a minha inspiração, e estava a tirar tudo isso de mim. Sentia-me culpada por querer mais para mim, por dar-lhes tudo e sentir que devia dar mais a mim. Senti-me dividida, saturada, sufocada. Nesse momento a relação com o meu companheiro estava a desmoronar-se e custou-nos aceitar esse facto porque, na teoria, num mundo idílico, nós tínhamos uma vida perfeita. Custou-me aceitar que o que nós sentíamos um pelo outro já não era amor de mulher e homem, era o amor pelos nossos filhos que nos permitia continuar ligados. Custou-me imaginar ter que desistir de um sonho tão importante para mim: ter uma família. Sempre imaginara envelhecer com o meu companheiro, juntos a acompanharmos o crescimento dos nossos filhos. Imaginara-nos a lidar com a adolescência destes dois rapazes. Imaginara tantos momentos de união e família. Olhava para o futuro e esse sonho não fazia mais sentido. Não podemos estar juntos se o amor e o respeito já não existem. Não queria que os meus filhos crescessem a acreditar que um casamento era aquela relação. Queria mais para eles. Ouvi várias vezes “devias ficar pelos teus filhos.”, mas era precisamente por eles que me queria separar. Como poderia eu ser boa mãe se estava infeliz? A decisão que tinha que tomar é como quando temos um penso há vários dias. Sabemos que já é altura de o arrancarmos, que ele já não serve o seu propósito, mas mesmo assim, queremos adiar aquela dor.
No dia em que fui fazer a biópsia, fiquei sozinha à espera do médico, e fiz uma pequena meditação e uma promessa. Prometi que, se o resultado viesse positivo, eu mudaria drasticamente a minha vida- separava-me e colocava os meus filhos numa escola. Não foi uma decisão fácil. Deixava para trás uma vida confortável a nível financeiro. Teria que começar do zero sem carreira, sem a possibilidade de vir a ter um emprego naquele momento, e com dois filhos para sustentar. Mas, tinha que ouvir o meu corpo, a minha alma e confiar no meu instinto. Seria difícil? Com certeza! Seria um grande desafio, mas a vida é feita de desafios.
Eu sabia que o meu corpo não iria aguentar um nova ronda de tratamentos oncológicos continuando naquela relação. Era impossível. Tinha que escolher entre a união da nossa família e a mim. Se continuasse nessa relação e avançasse com os tratamentos e não corresse bem, os meus filhos poderiam perder a sua mãe. Se me separasse e avançasse com os tratamentos, com serenidade e sem stress, os meus filhos perderiam somente a união dos seus pais, mas teriam os dois vivos.
Em Novembro de 2019 soube que o cancro tinha voltado. Nessa altura eu já estava separada, a viver sozinha e tinha-me apaixonado perdidamente.




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