Querido familiar/amigo
- Sofia Caessa
- 6 de jul. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 13 de jul. de 2021
Querido familiar/amigo:
Tenho cancro.
Não estava preparada para isto, como ninguém nunca está. E sei que tu também não estarás preparado.
Cancro é algo que achamos que só pode acontecer aos outros, mas está a acontecer comigo. Aqui. Agora.
Vou iniciar tratamentos e vai ser um processo longo e duro.
Quero que este processo seja o menos doloroso possível e quero continuar a viver. Tenho cancro e continuo a ser uma pessoa com emoções, desejos, vontades e sonhos.
Para isso, preciso do teu apoio e a da tua ajuda.
Preciso que aceites a minha doença e não a minha morte. Não sabemos qual será o resultado desta doença. Aceita-a como me aceitas a mim, como eu sou, com os meus defeitos e qualidades.
Diz a palavra cancro. Não a escondas de mim. Não finjas que eu não tenho cancro. Eu sei que tenho. Olha-me nos olhos quando disseres a palavra cancro.
Sei que estás assustada. Também eu estou.
Apoia-me quando eu tiver medo e sem vontade de continuar os tratamentos. Está do meu lado quando eu quiser desistir. Tenta não ter medo do meu medo e não desistas de mim.
Confia em mim, mesmo quando eu quiser desistir. Dá-me a mão e diz-me que acreditas na minha força e coragem.

Reza por mim, se fizer sentido para ti.
Fala-me das tuas preocupações, dos teus problemas, das tuas vitórias. Continuo a ser tua amiga. Continua a querer saber de ti e da tua vida. Mas, não me sobrecarregues com questões triviais.
Diz-me que estou bonita quando achares que estou verdadeiramente bonita. Não me mintas. Não me digas que estou bonita quando tenho olheiras e estou visivelmente cansada. Eu vejo-me ao espelho todos os dias, como todas as outras pessoas.
Cuida dos meus filhos. Brinca com eles. Eles precisam de sentir que está tudo bem. Eles precisam de aproveitar a infância deles. Poderei não ser a melhor mãe durante este processo.
Apoia e ajuda o meu companheiro. Ele tem de cuidar de mim e de gerir a minha tempestade de emoções.
Apoia o meu pai e a minha mãe. Eles têm medo e estão a dar tudo para me apoiar, mas eles também precisam de apoio. Precisam que alguém lhes diga que eu não vou morrer. Precisam de desabafar e chorar. Dá-lhes a mão também.
O cancro não me afeta só a mim. Afeta a minha família e todos os que me rodeiam.
Perdoa-me pela minha indelicadeza ou frieza, pelo meu silêncio ou afastamento. Às vezes preciso de me esconder na minha gruta para me sentir segura. Às vezes preciso gritar o meu medo. Às vezes nem força tenho para gritar.
Talvez mude. Talvez ganhe uma perspetiva diferente sobre a vida. Talvez ganhe intolerância em certas situações. Talvez ganhe mais compaixão. É provável que eu mude, mas, na minha essência, serei a mesma pessoa. Aceita-me como sou e como poderei ser.
Peço que sintas empatia e compaixão por mim, durante e depois dos tratamentos.
Ajuda-me a ajudar-me a mim, mas não me impinjas nada nem me faças sentir culpada se eu rejeitar os teus conselhos ou sugestões. Pergunta-me como me podes ajudar.
Pergunta-me como me sinto. Não assumas que estou mal. Nem finjas que estou bem.
Perdoa-me se as minhas emoções ficarem descontroladas. O medo é demasiado forte.
Não me fales de outras pessoas que tiveram cancro, especialmente se a doença resultou na sua morte. Quero focar-me em mim e no meu cancro.
Não analises o meu cancro. Não me digas porque é que o cancro apareceu.
Inclui-me nos teus planos. Talvez tenha de recusar muitas vezes, mas gostaria de sentir que a minha presença é bem-vinda.
Não me digas que vai tudo correr bem. Ninguém sabe se vai ou não correr bem. Em vez disso, diz-me que vais estar do meu lado incondicionalmente. Diz-me que vais estar do meu lado se não correr bem.
Não me digas que tenho de ser positiva. Não sei como vou reagir a tudo isto. Não sei qual será o meu processo. Um dia serei o rosto da positividade, noutro dia estarei no fundo de um buraco. Faz parte.
Dá-me a tua mão.
Abraça-me.
Ouve-me.
E, juntos, vamos caminhar este percurso.
Sofia Caessa
Julho 2021



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