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Três Semanas de Internamento

  • Foto do escritor: Sofia Caessa
    Sofia Caessa
  • 28 de abr. de 2020
  • 4 min de leitura

Quando eu estava finalmente a conseguir cuidar de mim, a concentrar-me no meu corpo, nas minhas necessidades, em nutrir a minha alma, chegou esta notícia que virou o meu mundo ao contrário. Não só tinha que me manter forte e confiante para mim como agora teria que encontrar força inimaginável para cuidar de mim e do meu filho. Para lhe passar a minha calma, o meu otimismo, a minha força, a minha alegria. Para fazer dos “maus momentos” os melhores momentos possíveis. O G esteve internado três semanas (teve alta uma semana antes do tempo estipulado) e dessas três semanas guardo tantas memórias boas. Os dias preenchidos com jogos de tabuleiro, filmes, histórias. Memórias de dormirmos agarradinhos na mesma cama. Uma das vantagens de ser doente oncológico- deixaram-me partilhar a cama com o G para eu poder estar mais confortável. 

Lembro-me bem do dia em que a cabeleireira foi ao IPO para lhe rapar o cabelo. O G estava tão entusiasmado. Ainda se lembrava de ter rapado o cabelo quando eu tive cancro há quatro anos. Depois do corte de cabelo, a educadora do IPO mostrou-nos uns gorros feitos à mão, uma oferta às crianças do IPO. O G escolheu um gorro azul com um grande pompom azul. A educadora deixou-me escolher um gorro para mim. Apesar de já não estar careca, na altura ainda tinha o cabelo curto e estávamos no inverno. Eu e o G voltamos para o nosso quarto com os gorros na cabeça. Saltamos para a cama e tirámos uma fotografia. Esta fotografia é uma das minhas favoritas. No meio de todo o medo, de toda a incerteza, os nossos olhos brilham, a fotografia espelha o nosso amor e a nossa felicidade. Devemo-nos permitir sentir felicidade, alegria, leveza, mesmo quando em momentos como este, quando temos o nosso filho internado no IPO. Depois da alta, usámos esses gorros sempre que íamos ao IPO. E sei que vou guardá-los para sempre, como símbolo da nossa cumplicidade, da nossa força, da nossa coragem.




Vivemos dias bonitos durante esse internamento. E mesmo os dias de tratamentos ou intervenções (punção lombar ou biópsia) eram pautados por alegria. Lembro-me do dia em que o G foi colocar o catéter central. Tive que me equipar para o acompanhar ao bloco operatório. Lembro-me do entusiasmo na cara dele a ver-me vestida assim. Fiz uma dança completamente ridícula que o fez sorrir um daqueles sorrisos gigantes e lá fomos nós para o bloco operatório. Esta foi a primeira vez que entrei num bloco operatório verticalmente. Todas as outras vezes tinham sido comigo, horizontal, a entrar numa maca para ser operada, aberta, examinada. Nunca tinha visto um bloco operatório desta perspetiva. Nunca tinha reparado no equipamento, nunca tinha visto o local onde os médicos se preparam para entrar para o bloco. Uma parte de mim sentiu fascínio e gratidão pelos avanços tecnológicos. Aquele bloco operatório parecia que fazia parte de uma filme de ficção científica. Mas também senti um sufoco, uma dor, senti a minha fragilidade. Quantas vezes tinha eu entrado numa sala destas? E agora teria eu que estar de pé, a segurar a mão do meu filho e a guardar para mim todas as emoções passadas, todos os medos, todas as memórias de momentos parecidos com este. Nesse dia, o G colocou o catéter central e quis saber tudo ao pormenor. Que bonita que é a coragem dele, pensei eu. Estou prestes a fazer 40 anos e ainda não consigo explicar com precisão como funciona o meu coração. Despedi-me dele e voltei para o meu quarto. Chorei. Chorei pela fragilidade dele, por eu não poder fazer nada. Chorei a pensar nos meus pais no dia da minha operação cirúrgica, à espera durante oito horas. Chorei enquanto pedia para ele não sofrer. Chorei porque, por mais que me esforce, parece que estou a destinada a percorrer corredores de hospitais, a estar em blocos operatórios, a sentir a sombra omnipresente da doença. E, sem me dar conta, chamaram-me para ir vê-lo na sala dos cuidados intensivos. Limpei as lágrimas e fui vê-lo. Lá estava ele, ligeiramente zonzo, a contar-me como tinham inserido o catéter dentro dele. Estava completamente fascinado. 

Esse dia foi o mais doloroso, é verdade, mas foi um dia entre tantos. Tantos dias de alegrias, de partilhas de comida de hospital, de união. Fizemos dos momentos chatos brincadeiras. Na primeira semana eu tinha que medir toda a urina que ele fazia e apontar num papel. Era um processo chato para os dois. Mas, fazíamos um jogo de adivinhar quanta urina seria. Fizemos daquele quarto a nossa casinha. O parapeito da janela com pilhas de livros e jogos. As paredes coloridas pelos desenhos de amigos, de postais, de fotografias.

A magia da vida é precisamente isso- é darmos cor a um lugar sombrio e transformá-lo num lugar bonito, é darmos alegria ao que nos doi ou custa. A dor continua lá, o feio permanence, mas também há lugar para o bonito e para os sorrisos. 

O que me custou mais nesse internamento foi o meu filho mais novo. Não pude estar tão disponível para ele. Sabia que ele estava bem em casa dos meus pais, mas de um dia para o outro a vida dele também foi virada do avesso. Ele estava profundamente triste com a ausência do irmão. Nos dias que passei com ele, tentei fazer atividades diferentes, mas ele só se sentia bem a ir visitar o irmão. Numa das vezes, ao regressar a casa, olhei para trás e vi-o, sentado na cadeira do carro, de pernas cruzadas a rezar ou a meditar. Não sei o que ele estava a fazer, não mo disse, mas sei que foi um momento profundo para ele e sei que estava a pensar no G. Olhei para o N e soube que partilhavamos a mesma dor e o mesmo amor. Apesar da tristeza que ele sentia, foi bonito ver esse amor tão forte, tão intrínseco.


Não vou tentar esquecer essas três semanas por estarem associadas a um momento triste e doloroso da minha vida. Pelo contrário, nunca me vou esquecer dessas três semanas pois foram momentos que fortaleceram a minha relação com o meu filho, que o fez confiar plenamente em mim. “És a melhor mãe que alguma vez tive,” disse-me ele uma vez. Ri-me e respondi-lhe “Sou a única mãe que tens.” “Não, és a melhor.  Melhor que todas as mães que tive em todas as minhas vidas.” Quem sabe… Só sei que adoro ser a mãe dele nesta vida. 




 
 
 

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